Dia Mundial do Turismo, 27 de setembro de 2015

Introdução:

   Ao celebrarmos o Dia Mundial do Turismo, a Mensagem do Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, a assinalar este dia, surge-nos em linha com a indicação da Organização Mundial do Turismo (OMT): Mil milhões de turistas, mil milhões de oportunidades!

   Este tema parte da dimensão mensurável do fenómeno do turismo, para depois o refletir nas suas múltiplas possibilidades. Efetivamente, se no ano de 2012 foi ultrapassada a barreira simbólica dos mil milhões de turistas; prevê-se que em 2030 este fenómeno, de movimentação humana, atinja os dois mil milhões. Ora, tal realidade coloca-nos diante de oportunidades e de perigos! E se estes últimos exigem um esforço para os minorar, ou mesmo para os eliminar; abre-se ao mundo um conjunto de possibilidades que, com este fluxo, urge saber aproveitar.

   Portugal, que se tem afirmado claramente como inequívoco destino turístico, partilha a mesma realidade: perigos e oportunidades! Mas são estas últimas – as oportunidades – que urge incrementar entre nós, numa perspetiva de vivência integral do turismo, centrando-o, muito especialmente, na contínua revalorização do ideal de fraternidade; de redescoberta e assunção da nossa identidade mais profunda, plasmada no património material e imaterial; e de desenvolvimento equitativo e sustentável de todo o território nacional. De igual forma, abre-se à Igreja uma nova dinâmica de evangelização, que ultrapassa as formas tradicionais, colocando-nos numa dinâmica de saída (cf. EG. 27), ao encontro do outro, que nos visita, para lhe anunciar a pessoa de Jesus Cristo.

  Considerando a expressão «mil milhões de oportunidades», com toda a sua carga simbólica, abordemos três aspetos que, em nosso entender, se oferecem como possibilidade à permanente revalorização da prática turística, em Portugal.

 

1. Uma nova fraternidade

    Com o enriquecimento em curso do conceito de turista, que já não se limita a considerar apenas aqueles que visitam um lugar, mas que assume igualmente os que tendem a integrar, ainda que por breves períodos, a vida das comunidades que visitam, partilhando-a – aqueles que são denominados «cidadãos do mundo»[1] -, abrem-se, para nós, múltiplas possibilidades de acolhimento e de vivência de uma nova fraternidade, assentes num diálogo sincero; na partilha de vivências e de experiências; e num intercâmbio cultural profundamente enriquecedor. São múltiplas as nossas cidades, vilas e aldeias – e especialmente estas últimas, por vezes em vias de extinção – que beneficiam destas novas formas de presença. Tal pressupõe novas modalidades de acolhimento, não já simplesmente momentâneo, mas assente na disponibilidade para uma partilha mais profunda, que permita uma autêntica integração e participação da vida da comunidade. Esta outra forma de presença, nos diversos locais, do litoral ao interior, propicia a interculturalidade e uma vivência de fraternidade que muito enriquece ambas as partes. Este encontro, intercâmbio e partilha, favorece – como afirma o Conselho Pontifício – «a harmonia e a concórdia»[2]. Neste encontro da diversidade, como nas demais formas de presença turística, salvaguardada sempre a dignidade de cada um e a identidade de cada local, abrem-se novas possibilidades à vivência da fraternidade, não já assente na comunhão com o vizinho próximo, mas verdadeiramente globalizada, num autêntico ecumenismo das relações humanas. 

 

2. Oportunidades locais

   O aumento da atividade turística, num determinado local, tem uma dimensão correlata, entre outros aspetos, com a preservação do património e da memória histórica. Entre turismo, património e memória existe um dinamismo de potenciação que urge valorizar: o turismo reclama o património; e o património atrai os turistas.

   Mas a noção de património vai além de uma visão exclusivamente material – a herança do passado -, para se abrir à noção de identidade: uma autêntica traditio herdada dos antepassados[3], que configura e plasma a realidade presente, sempre em contínua evolução. 

   Ora, o aumento do número de turistas reclama um renovado e contínuo cuidado na preservação do património local e no aprofundamento da sua memória histórica, por forma a oferecer, a quem visita, não apenas elementos esparsos de uma comunidade, mas uma visão integral e unitária de uma identidade, patente nas componentes materiais e imateriais que a caraterizam. Por outro lado, face a um mundo globalizado, que tende a uniformizar vivências, a afirmação da diferença é fonte de redescoberta e preservação da singularidade local e de enriquecimento para o visitante. Valorizando-se ambas as partes: na redescoberta da identidade profunda de uma comunidade; e na oferta da diversidade que enriquece.

   Mesmo numa perspetiva económica, esta revalorização da identidade local comporta em si a promoção e incremento das artes e ofícios que podem desenvolver-se, enquanto elemento identitário; a valorização do artesanato, que hoje nos é tão caro; e ainda a promoção de atividades direta ou indiretamente ligadas ao turismo, como a agricultura, a pecuária, ou outras áreas do labor humano. O turismo, neste sentido, poderá potenciar o desenvolvimento dos setores primário e terciário da atividade económica, mormente em espaços que, nos últimos anos, sofreram a desertificação ou mesmo o abandono. Contribuindo, assim, para um desenvolvimento equitativo e diversificado de todo o território nacional, bem como para a diversificação da oferta de trabalho.

   Certamente que tudo deve ser equacionado tendo em consideração a sustentabilidade económica, mas igualmente a sustentabilidade social e a sustentabilidade ambiental, promovendo uma autêntica «ecologia integral» (LS. 137), para usar a expressão do Papa Francisco. Aliás, esta visão harmónica da vida e da interação com as pessoas e com a natureza são bem uma característica do nosso tempo, procurada por muitos dos que nos visitam, particularmente aqueles que provêm de espaços saturados, onde a qualidade de vida se tornou diminuta.

   No que concerne ao ambiente natural, o investimento ecologicamente sustentável comporta uma multiplicidade de benefícios. A que acresce, hoje, um consenso, nomeadamente entre as camadas mais jovens, quanto à necessidade de se implementarem. Espaços ecologicamente sustentáveis serão muito mais atrativos no futuro próximo, pelo que o investimento a este nível será potenciador da atividade turística, mas de uma atividade sustentável, porque amiga do ambiente.

  

3. Oportunidade para a Igreja

    O tema mil milhões de oportunidades coloca a Igreja face a uma multiplicidade de possibilidades, a que esta deverá corresponder, para ser fiel à sua missão. A Igreja assumiu sempre, como sua tarefa primeira, a missão evangelizadora. Contudo, o tempo presente, particularmente com o Concílio Vaticano II e o magistério pontifício que se lhe seguiu, desafia-a a ir ainda mais longe nesta sua ação prioritária: «Uma evangelização nova. Nova no seu entusiasmo, nos seus métodos, na sua expressão»[4], segundo as palavras  do Papa João Paulo II, a ressoarem ainda vivamente nestes tempos! Palavras a que acresce, nos dias que correm, o convite claro do Papa Francisco a que as comunidades cristãs não se detenham na «auto preservação» e na «administração», para se abrirem, em autêntica conversão pastoral, ao «estado permanente de missão» (EG. 25).

   Ora, o turismo, pela sua especificidade, convoca a Igreja a sair de si e a fazer-se presente nos espaços onde se encontram os visitantes, seja em alguns dos seus membros, seja mediante subsídios de que possa valer-se. É certo que a primeira forma de acolhimento se fará na comunidade cristã e, especialmente, na Eucaristia. O mesmo acontecendo na disponibilização criteriosa do seu património, em que tanto temos insistido, como forma de incrementar a multisecular forma de evangelização. Mas, a Igreja tem de abrir-se a novas oportunidades pastorais: tornar-se presente nos espaços da comunidade humana e social, para tanto formando leigos que assumam a sua vivência cristã no âmbito do turismo, particularmente os que operam neste setor; providenciando à sua presença junto dos visitantes, mediante a palavra escrita, a mensagem enviada, a divulgação das suas ações, para as quais deverá saber atrair quem chega, tornando-as, nesse sentido, apelativas.

   Mas uma Igreja em «saída» (cf. EG. 20) não pode mais deter-se nas suas estruturas físicas paroquiais; necessita de montar tenda no meio dos homens – na praia, no parque de campismo, nas grandes superfícies, nos portos e aeroportos, nas ruas; onde quer que as pessoas se encontrem. Temos já belos exemplos de comunidades que sabem ir ao encontro das pessoas; mas temos ainda um campo imenso de criatividade que nos impulsiona a sair do conforto e segurança dos espaços das nossas paróquias, para servir a pessoa, anunciando-lhe Jesus Cristo, no contexto das suas vivências habituais.

   Fundamental é hoje a capacidade de diálogo com outras confissões cristãs e mesmo com outras religiões, criando espaços ecuménicos a propor aos visitantes, sobretudo nos grandes centros – espaços de oração, de reflexão ou mesmo de debate construtivo, num mundo, como o nosso, que é cada vez mais multicultural e multirreligioso.  

   Por fim, a comunhão com as instituições civis locais na promoção do seu património e das suas riquezas, é um autêntico serviço ao bem comum, de que a Igreja não deve dispensar-se. Tanto mais que, partindo daqui, poderá servir a causa dos mais frágeis.

 

   Mil milhões de turistas, mil milhões de oportunidades – uma interpelação à nossa capacidade de ação e de criatividade, no autêntico serviço à pessoa e às comunidades, promovendo a justiça e a equidade; e fazendo da viagem um percurso de renovação existencial e de uma verdadeira fraternidade universal.

Pe. Carlos Alberto da Graça Godinho*

 



[1] Cf. PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A PASTORAL DOS MIGRANTES E ITINERANTES – Mil milhões de turistas, mil milhões de oportunidades. Mensagem para o Dia Mundial do Turismo 2015. Vaticano, 24 de junho de 2015, nº 2.

[2] Ibidem, nº 2.

[3] Cf. MENDES, António Rosa – O que é o património cultural. Olhão: Gente Singular Editora, 2012, p. 11.

[4] PAPA JOÃO PAULO II – Discurso do Papa João Paulo II na abertura da XIX Assembleia do CELAM. Haiti: Catedral de Porto Príncipe, 09 de março de 1983, cap. III. [Disponível em: w2.vatican.va].

* Diretor da Obra Nacional da Pastoral do Turismo (ONPT).

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