Introdução

Ao iniciarmos um novo mandato no serviço da Pastoral do Turismo, em âmbito nacional, reafirmarmos como objetivos fundamentais, da nossa ação, os que foram definidos, na primeira hora, pela Obra Nacional da Pastoral do Turismo, e que estão inscritos nos nossos Estatutos, a saber: «iluminar a realidade humana do turismo com a Palavra de Deus» e «promover o respeito pela dignidade da pessoa humana e a procura do bem comum, expressos pela Doutrina Social da Igreja, em toda a atividade turística» (art. 4º)[1]. Sabendo, todavia, que estes objetivos globais se desdobram em oito objetivos específicos, inscritos no mesmo Estatuto, que, por sua vez, seguem as indicações da Igreja Universal para este serviço de ação pastoral.[2]

É precisamente em conformidade com os objetivos específicos da Obra Nacional da Pastoral do Turismo, enquanto fundamento da definição de prioridades para este novo mandato que vamos iniciar, que sublinhamos três deles que urge continuar a trabalhar com particular insistência: «facultar à pastoral ordinária das dioceses, e respetivas paróquias, uma catequese adequada sobre o tempo livre e o turismo, incentivando-as a criar serviços de pastoral do turismo a nível local» (art. 5º, al. b); «incentivar a disponibilização do património artístico e cultural da Igreja, como meio privilegiado de anúncio de Jesus Cristo, colocando-o ao serviço de uma autêntica evangelização, em colaboração com o Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja e com os secretariados ou departamentos diocesanos dos Bens Culturais» (art. 5º, al. d); «propor programas de formação especializada para guias turísticos e operadores de turismo, no intuito de dispormos de agentes pastorais devidamente preparados. A este nível, estabelecer parcerias com diversas instituições formativas, incluindo, se possível, os conteúdos religiosos na formação já ministrada» (art. 5º, al. e). Acrescendo, ainda, a estes objetivos, aquela orientação global da Igreja de que o acolhimento «é o núcleo central da pastoral do turismo», identificando-o como «uma das atitudes fundamentais que devem caracterizar toda a comunidade cristã»[3].

Assim, definimos como prioridades pastorais para este próximo triénio: o trabalho com as dioceses e a criação de serviços diocesanos de pastoral do turismo; a disponibilização do património religioso aos turistas, como meio singular de evangelização, criando condições de acesso e fruição integral desse património; e a formação para o acolhimento, como ação prioritária de toda a pastoral do turismo. Dioceses, Património e Acolhimento serão, então, as nossas prioridades.

Tal não significa que descuremos os outros âmbitos de ação da Obra Nacional da Pastoral do Turismo, que não se circunscrevendo às ações indicadas, deverão continuar a merecer a atenção que lhes é devida. A Pastoral do Turismo, ao contrário do que frequentemente se vê afirmado, não se resume apenas ao turismo religioso ou ao cuidado com a fruição do património. É sua missão cuidar ainda, em conformidade com os seus âmbitos de ação, do turismo de lazer, o turismo dos cristãos, peregrinações e santuários, termalismo, bem como todas as demais práticas turísticas.[4] O âmbito de ação é alargado. Cuidaremos de todos os aspetos da nossa ação, com enfoque para as prioridades enunciadas.

 

1. Acolhimento

O acolhimento é uma atitude base nas nossas relações interpessoais e institucionais. Significando o termo latino accolligere «receber», «hospedar», «albergar», «dar agasalho»[5], podemos dizer, ainda, como refere o professor Abel Dias, que o acolhimento significa «colocar o outro mais perto de mim» e «receber a pessoa tal qual ela é e se apresenta»[6].

Ora, se o acolhimento é uma atitude humana básica, que nos coloca em comunhão uns com os outros, servindo de porta de abertura para todas as demais inter-relações pessoais e institucionais; na cultura bíblica, o acolhimento é entendido como hospitalidade, enquanto dever fundamental dos cristãos. Assim no-lo diz o autor da Carta aos Hebreus, ao afirmar: «Não vos esqueçais da hospitalidade, porque graças a ela alguns, sem o saber, acolheram anjos» (Heb. 13, 2). Atitude que provém já daquele princípio básico de justiça e de bênção, definido pela lei mosaica, que obrigava ao cuidado com os órfãos, as viúvas e os estrangeiros (cf. Dt. 14, 29). Assim, podemos dizer que o acolhimento é «um dever cimeiro de todo o cristão, pelo qual se manifesta a autêntica caridade cristã»[7]. Não estranhando, por isso, que a Igreja o coloque no centro da pastoral do turismo, como acima se referiu.

O turismo, pela sua natureza, coloca-nos diante de irmãos que nos procuram para sua valorização pessoal e seu descanso; seja em termos de conhecimento da nossa realidade patrimonial e cultural; seja na fruição dos múltiplos recursos que temos para oferecer; seja, ainda, na perspetiva recreativa, que anima tantos a visitar-nos. A todos devemos saber acolher, naquela consciência de que «o homem é o primeiro caminho que a Igreja deve percorrer no cumprimento da sua missão: ele é a primeira e fundamental via da Igreja, via traçada pelo próprio Cristo, via que imutavelmente passa através do mistério da encarnação e da redenção» (RH. 14)[8]. Atitude, ainda, que é o primeiro caminho para a evangelização, como nos deixa perceber o Papa Francisco, ao afirmar: «há uma forma de pregação que nos compete a todos como tarefa diária: é cada um levar o Evangelho às pessoas com quem se encontra, tanto aos mais íntimos como aos desconhecidos» (EG. 127).

Exposto isto, esforçar-nos-emos por propor formas concretas de acolhimento, nas dioceses e nas paróquias. Antes de mais, pela atenção pessoal a quem nos visita. Certamente com a sensibilização e a formação necessárias de cada pessoa e das nossas comunidades para esta atitude, especialmente naquelas em que os turistas são uma presença mais frequente e numerosa. Mas, de igual modo, havemos de revalorizar, especialmente nestes contextos de maior presença turística, um autêntico ministério do acolhimento, contando com membros das comunidades cristãs que tenham um carisma especial para esta missão; carisma esse que deve ser discernido, para ser colocado ao serviço, em nome da própria comunidade.

Nesta mesma perspetiva do acolhimento, não podemos esquecer as mediações, que urge implementar: afixação de horários das celebrações eucarísticas e de outros momentos significativos da vida das paróquias, com a sua disponibilização online; uma mensagem do Bispo Diocesano, dirigida aos fiéis da sua diocese e aos turistas que a visitam, com uma catequese sobre o turismo e uma palavra de proximidade e afeto para com estes, nas épocas de maior afluência; a elaboração e distribuição de flyers, nas paróquias, com informação básica da vida da paróquia e palavra de saudação do pároco; a realização de pequenas palestras ou conferências, bem como de encontros informais, em espaços de maior concentração turística, convidando os visitantes a participarem.

Especial cuidado deve merecer a celebração da Eucaristia – momento central da vida da comunidade: para além do acolhimento, providenciar a participação ativa dos visitantes, com admonições apropriadas; com a celebração, no todo ou em parte, na sua própria língua; mediante a participação nalguns dos ministérios, se tal for oportuno, como o do leitor, por exemplo; entre outas muitas ações. Sem perturbar, todavia, a dignidade própria da celebração.

O acolhimento é a atitude de base para toda a pastoral do turismo. Exige de nós uma autêntica criatividade para que o vivamos com fecundidade, mas também com autenticidade.

 

2. Património

Consciente da importância do património cultural religioso, no contexto do património cultural português, e dos objetivos anteriormente enunciados, a Obra Nacional da Pastoral do Turismo, com todos os seus parceiros eclesiais, em que sobressai o Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igreja, irá continuar a empenhar-se na disponibilização efetiva e qualitativa deste património a todos os visitantes. Esta continua a ser uma área de ação urgente. A Igreja não pode reclamar para si a titularidade destes bens sem os colocar ao serviço de todos, pois sendo a Igreja sua proprietária, exerce uma função de administração deste património a favor da comunidade – da própria comunidade crente, mas também de todos aqueles que pretendam conhecê-lo. Assim o afirma a própria Conferência Episcopal Portuguesa, na sua Carta Pastoral Património Histórico-Cultural da Igreja, de 1990: «O património da Igreja, mesmo se colocado mais diretamente sob responsabilidade da hierarquia, tem como primeiro titular a comunidade eclesial no seu conjunto. Os pastores, neste campo como aliás noutros, são meros responsáveis da administração, diante de Deus e dos fiéis. Exerçam-na como um serviço à comunidade de salvação, que é a Igreja, e por ela a todos os homens, excluindo assim qualquer propósito de poder ou domínio temporal»[9].

Além disso, o património cultural da Igreja detém uma natureza intrínseca que o torna meio privilegiado de evangelização. Daí que a mesma nota pastoral insista nesta sua dimensão: «O património eclesiástico é muito mais que um simples objeto de exercício do direito e da propriedade. Para a Igreja representa um instrumento necessário, mesmo indispensável, ao exercício da sua missão»[10]. A que acrescenta: «O património é indispensável à educação religiosa dos povos, em sentido amplo, para a qual em boa parte nasceu. (…) Numa época como a nossa, em que tanto relevo se dá à imagem visual, merece ser particularmente sublinhada esta função catequética do património da Igreja»[11]. Pelo que, conclui: «Neste sentido, o direito da Igreja a dispor de um património cultural, criando-o, administrando-o, fruindo-o, salvaguardando-o e valorizando-o, é essencial ao desempenho do seu múnus»[12].

Ora é esta perspetiva que a Obra Nacional da Pastoral do Turismo consubstancia na sua ação: em conformidade com os seus objetivos, acima enunciados, tudo faremos para que o património cultural e artístico da Igreja, devidamente disponibilizado, sirva como «meio privilegiado de anúncio de Jesus Cristo, colocando-o ao serviço de uma autêntica evangelização»[13].

Para tanto, são necessárias duas linhas de ação: formação dos agentes turísticos, especialmente dos guias e de alguns voluntários das nossas comunidades; e promover a disponibilização de conteúdos, particularmente através das novas plataformas digitais ao nosso dispor. Após uma primeira experiência de formação de agentes turísticos, com conteúdos diversos – simbólica bíblica, liturgia, história do cristianismo, entre diversas áreas da compreensão do turismo e sua gestão – realizada, em pareceria com a Universidade Católica Portuguesa, Pólo Regional de Braga, num Curso de Formação Especializada, em 2016; tem sido agora o Patriarcado de Lisboa a promover formação qualificada para os agentes turísticos, especialmente guias, com uma proposta de formação, em parceria com a Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa. Este Curso de Formação Avançada em Turismo e Património Religioso vai já na sua segunda edição, parecendo-nos ser uma excelente oferta de formação para os guias e demais agentes turísticos, que pretendam compreender a especificidade do património religioso, para melhor o apresentar aos visitantes. Sem afrontar a legítima ação de cada Secretariado ou Departamento Diocesano de Pastoral do Turismo, que devemos sempre incentivar, julgamos que este modelo de formação, em parceria com instituições formativas, eclesiais ou civis, que se disponham a implementá-lo, deve ser cada vez mais incrementado entre nós, definindo-se um plano de formação que possa ter uma abrangência nacional, disponível para todos os que desejarem frequentá-lo. Desta formação resultará uma ação qualificada na abordagem do património religioso e sua compreensão simbólica. Não deixaremos, ainda, de promover e cuidar de outras ações de formação de guias, mesmo que mais concentradas ou pontuais, que deverão merecer sempre o nosso apoio e empenhamento como serviço nacional.

O contacto com o património faz-se por meio da visita pessoal. Se é certo que hoje se pode preparar a visita a um monumento antecipando-a através de meios digitais, a grandeza e envolvência de um monumento ou de um obra de arte acontece quando, sem mediações, me coloco diante deles. Não obstante, a sua compreensão necessita de uma gramática de que uma grande maioria dos visitantes não dispõe. Daí a necessidade de formação dos nossos guias – intérpretes, cuja missão é precisamente dar a conhecer este património. Ora, este tempo, para além do trabalho singular dos guias-intérpretes, possibilita-nos o recurso a novas tecnologias que facilitam o acesso a essa gramática. São já algumas as dioceses em Portugal que recorrem a estas possibilidades, na apresentação de conteúdos e de alguns roteiros, para que os turistas possam fruir integralmente o nosso património. Deixando-se interpelar por ele. Felizmente temos já, em Portugal, um conjunto de empresas especializadas nestas plataformas digitais, que muito poderão contribuir para este desígnio: de forma personalizada e atrativa, dar a conhecer o nosso património religioso e cultural. Um desafio, certamente, para a nossa ação – nacional e de serviços diocesanos.

Nesta mesma perspetiva de disponibilização de conteúdos digitais, continuaremos disponíveis para trabalhar com as instituições civis, como o Turismo de Portugal, com quem, no início deste ano, efetuámos validação e complemento de conteúdos a disponibilizar numa plataforma digital, denominada Caminhos da Fé, onde constam mais de meia centena de santuários marianos, precisamente designados como «Altares Marianos». Plataforma esta que, a seu tempo, o Turismo de Portugal colocará online, e que, reconhecemos, que muito contribuirá para a promoção do Turismo Religioso em Portugal.

 

3. Dioceses

O trabalho de incentivo à criação de serviços de pastoral do turismo, nas Igrejas Locais, e o trabalho conjunto com os serviços diocesanos já constituídos, continuará a ser a prioridade das prioridades da Obra Nacional da Pastoral do Turismo. Na consciência de que o serviço nacional, pesem embora as suas competências nesse âmbito, tem como função primordial «exercer as suas atividades em articulação com os secretariados e departamentos diocesanos de pastoral do turismo»[14].

De resto, é nossa convicção de que a pastoral do turismo só será efetivamente implementada se cada diocese assumir aquela indicação do Papa Bento XVI, dirigida ao VII Congresso Mundial da Pastoral do Turismo, que decorreu em Cancún, em Abril de 2012: «exorto a fim de que a pastoral do turismo faça parte, de pleno direito, da pastoral orgânica e ordinária da Igreja, de modo que, coordenando os projetos e os esforços correspondamos com maior fidelidade ao mandato missionário do Senhor»[15]. Com efeito, é no terreno que se vive a ação pastoral e não nos nossos gabinetes. Sem uma ação determinada das dioceses e respetivas paróquias, a pastoral do turismo será uma sombra pálida do que realmente deve ser.

Neste sentido, iremos continuar o nosso esforço de sensibilização junto das dioceses, para que se criem serviços diocesanos de pastoral do turismo, seja no âmbito dos Secretariados Diocesanos da Mobilidade Humana ou das Migrações e Turismo, seja como serviço pastoral singular, a organizar. Assim, com esta perspetiva, continuaremos a reunir com os responsáveis diocesanos, sempre que oportuno, para fomentar estes serviços de ação pastoral.

De igual modo, pretendemos promover o trabalho em rede, entre dioceses, com partilha de experiências, de modo a enriquecermos o trabalho conjunto da pastoral do turismo, em Portugal. Neste sentido, para além da partilha de informação e de eventuais realizações conjuntas, incentivaremos à utilização da página web da Obra Nacional da Pastoral do Turismo, como plataforma comum; sem desprimor para os sítios web de cada uma das dioceses.

Para agilizar esta comunicação e partilha, a Obra Nacional da Pastoral do Turismo vai criar uma newsletter, com periodicidade a definir, que sirva para uma comunicação mais eficaz entre todos os serviços de pastoral do turismo – constituídos e a constituir -, contando, para tanto, com as informações dos Secretariados ou Departamentos Diocesanos de Pastoral do Turismo e com os Secretariados Diocesanos da Mobilidade Humana ou das Migrações e Turismo.

 

Conclusão

Ao iniciarmos um novo mandato trienal, reafirmamos que a Obra Nacional da Pastoral do Turismo não tem outro desígnio senão servir a Igreja, assumindo a missão prioritária da evangelização, num mundo tão desafiante, quanto necessário, no momento presente, como é o da atividade turística. O turismo, no contexto atual da nossa realidade nacional, não pode passar ao largo da nossa solicitude eclesial; ao invés, deve merecer uma ação determinada da Igreja, na capacidade de responder às necessidades humanas e espirituais de uma imensidão de visitantes que, a cada ano, nos procuram. Com verdade podemos dizer que o turismo é um sinal dos tempos – destes tempos! – a exigir de nós decisão e audácia. Certamente acolhendo quem chega às nossas comunidades, mas partindo igualmente para as periferias, onde a atividade turística se realiza. Neste Ano Missionário, que iniciamos, que Deus nos conceda a graça de amarmos este campo de missão e de o servirmos com todo o nosso empenho!

 

Coimbra, 05 de outubro de 2018

Pe. Carlos Alberto da Graça Godinho

 

 

[1] Estatutos da Obra Nacional da Pastoral do Turismo. Aprovados pelo Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa, a 08 de janeiro de 2013.

[2] Cf. Estatutos, art. 5.

[3] Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes – Orientações para a Pastoral do Turismo. Edição da Obra Nacional da Pastoral do Turismo. Braga: Libreria Editrice Vaticana, 2015, nº 19, p. 26.

[4] Cf. Estatutos. Art. 3º.

[5] Voc. Acolher in Michaelis – Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Disponível em: www.michaelis.uol.com.br [Consultado a 02 de outubro de 2018].

[6] DIAS, Abel – Acolhimento será um hábito. Valores de Sempre (EMRC). Maio de 2014. Disponível em: www.audacia.org [Consultado a 02 de outubro de 2018].

[7] GODINHO, Carlos Alberto da Graça – O Acolhimento na Pastoral do Turismo. Mensagem para o início da época balnear de 2014. Luso, 11 de julho de 2014.

[8] Orientações para a Pastoral do Turismo. Op. Cit., nº 19, p. 26.

[9] Conferência Episcopal Portuguesa – Carta Pastoral Património Histórico-Cultural da Igreja. Lisboa, 14 de maio de 1990, nº 2, 2.1.

[10] Ibidem, nº 2, 2.1.

[11] Ibidem, nº 3, 3.2.

[12] Ibidem, nº 2, 2.1.

[13] Estatutos, art. 5º, al. d).

[14] Estatutos, art. 6º, nº 1.

[15] Papa Bento XVI – Mensagem por ocasião do VII Congresso Mundial da Pastoral do Turismo. Cancún, 23 – 27 de Abril de 2012.

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